As poesias de Marco Antônio de Paula Franco
ME CONTE UM POEMA
Marco Antônio de Paula Franco


Igreja Matriz Nossa Senhora de Fátima, de Cianorte/PR.


Oração da segunda chance

Que eu possa, meu Deus, reandar
Reviver imensamente o dia comum
Redescobri-lo único, e estendê-lo
Pela noite sem brilho que brilhava
E eu não sabia...

Juntar cada caco do vaso do tempo
Do meu mundo de menino
Derrubado pela fase nova
Que nunca aconteceu
Como eu queria...

Que eu possa meu Deus, reviver
A alegria de qualquer coisa
De qualquer dia
De qualquer hora
Mas agora...

Sentir-me dono do meu caminho
E não vendê-lo para o homem modelo
Mas fechá-lo nas mãos
E diuturno me chamar
Para vivê-lo...

Marco Antônio de Paula Franco












































Cataratas do Rio Ligeiro, Cianorte/PR


Velhice

Eu vivi todos os dias
E todas as horas,
E cada minuto
Num segundo
Eu vivi

Não me fez falta
Uma segunda
Nem uma semana
Um mês
Nem um

Subi aquela montanha
E tantas outras
Que a única falta
É de descê-las
De mim

Acordar os sonhos infantos
Das crianças de nós
Antes que o balanço
Das redes
Balancem
Pós

Marco Antônio de Paula Franco






























O Poeta

Toda poesia tem algo sonso
E fala mansa
Mas não cansa
Tem varanda das seis e meia
Tem rua cheia e vaivém
Tem lembrança sem memória
Da história de alguém...

Tem tia desnomada
E qualquer coisa
Que nos preste
Uma lua, um luar
Um sonho, disseste
Silente, calada

Toda poesia abriga
O que o poeta medita
Alguma coisa vivida
Um idiota de si, assim
Aberto ao tempo, e não
Recitando sonhos
Morrendo a vida
Enfim.
Em vão...


Marco Antônio de Paula Franco




















































Olha o trem

Lá na estação tem gente
Que a gente não conhece
E depois que parte
Que pena! Se esquece...

Tem sonho que fica
Na lembrança da gente
E que depois, seguindo
Que pena! Desaparece

Tem coisa da gente
E sonho, e luzes
Arrefece

Passa o mundo
E estações somem
E a gente cresce...

Marco Antônio de Paula Franco


































O intruso

Na praça da igreja tem um jardim
E um bosque de flores, de esperança
Um sorveteiro idoso, e jasmins
Um resumo do que é ser criança

Por esses dias tinha uma festa
No bosque da igreja, de flores
E bolas coloridas, um monte de cores
Havia uma festa dentro de outra

Havia um passarinho caído do ninho
E um pedinte saído do nada
Um monte de desencontros

Melhor voltar ao passado, moço
E deixar só o bosque, borboletas
E nenhuma culpa na realidade nossa

Marco Antônio de Paula Franco


































Imagine

Imagine um campo verde, com crisântemos e cores, muitas flores
Sem nenhuma montanha ou ondulação que sirva de barreira
E você se vendo a engatinhar nos primeiros dias, da vida
Seu avô moço, sua mãe menina e seus sonhos embriões...

Imagine uma vitrine transparente mostrando sua vinda
Os tantos erros escondidos agora expostos e em exposição
Tantas pessoas que não eram prá ser mas foram simples adornos
Tantos sonhos no caminhar que te traz agora ao teu encontro

Imagine quantas mortes te rondaram, embora nem todos tenham morrido
Muitos estão por aí vivos, mas deixaram, é verdade, de existir
E você incompleto a cada passagem, dos que foram

Imagine quantas coisas poderiam ser lembradas e não o são
Por não ter tempo, nem estar o campo límpido e florido
E ainda mais por não ter simplesmente existido...

Marco Antônio de Paula Franco
17-6-03
































Um dos meus poucos poemas religiosos. Guardo-o com muito carinho porque resgata um pouco da minha dívida para com Ele. Eu sei que muito pouco faço para merecer o Seu perdão, mas não O nego em momento algum, porque vejo suas mãos em cada coisa bonita deste nosso universo...


Escritura

Quando eu escrevi o Teu nome
No livro da minha vida
Não tinhas lápis, nem caneta
Nem nada que pudesse escrevê-lo

Não era domingo, nem segunda-feira
Nem qualquer outro dia da semana
Nem qualquer mês do ano
Nenhum ano do milênio

Não estava neste planeta
E em nenhum outro do universo
Eu não estava sequer em mim
Em qualquer oceano desabitado

Quando eu escrevi o Teu nome, Meu Deus
No livro da minha vida
Eu havia mudado para outro mundo
Pois eu lhe havia escrito-me, Senhor

Marco Antônio de Paula Franco


































a indesejada


não era esse o fim que sonhei
sem arranjo de maestro, nem floral
querer-te-ia na verdade, indo só
e que prá voce fosse a corte final

mas não és nada, ó deusa do fim de tudo
se não o arremate, o estatelar febril
ninguém vai, sem antes as lágrimas
e ter você, em sí, ser desprezível e vil

não há nada que você complete
pelo contrário, dispersa, desune
quando vem vai a última esperança
de você, não há quem esteja imune

quem teve e tem fé, menos possessa
mas companheira certa, como o fim
último aceno, derradeira despedida

se pudesse alijá-la-ia, de mim e dos meus
você que faz doer a dor mais doída
não por acaso o contrário da vida


marco antônio de paula franco





























Velhas Senhoras

Eu fui num velório de morto, morrido
Num canto flores, e em outros senhoras
De preto, chorosas, esperando a hora
E as flores, contraste, festejando a vida

Num canto um livro, de nomes
E em outro, bandeja, fartura
No meio da noite uns cantos
E prantos, e espera, e velas

Eu fui num velório de noite, calmaria
E turbilhão de lágrimas, que heresia:
Alguém embarcando no trem do passado

Me senti despedindo, com a certeza
De estar indo com qualquer parte de mim
Para onde o começo inicia no fim

Marco Antônio de Paula Franco








































A poesia do Nada

A minha poesia não revoluciona, não derruba governo
Não procura entender a fome dos miseráveis de comida
Nem dos desprovidos de cultura – não sabem, nem vão saber
A minha poesia também cambaleia, desafina, desagrada

A minha poesia não foi feita para quem soletra, soma letras
Nem para didático, que classifica classes gramaticais, é fera
Uns sem conhecimento intelecto, outros com conhecimentos demais
A minha poesia não traz nada de novo, desistam dela

A minha poesia só visa um pouquinho de nada
Passar desapercebida, sem arroubos, sem quimeras
Sem arranjo de flores, sem dama na janela

A minha poesia, quem sabe um dia, não seja
Algo que você possa se lembrar, como a primavera
E depois resmungar: não, definitivamente não era...

Marco Antônio de Paula Franco






























declaração de amor


minha cidade
de traçados esculpidos
por mãos talentosas
...eu te amo!
não como te amam
como centro e polo
grande e rica
nada disso

não te preciso
não te exploro
apenas te curto
e reverencio

caminho por tuas ruas, cianorte
como se na palma de minha mão
perdoa se me ir um dia
mas eu não vou
eu vou ficar

não como forma imponente
que eu não sou
mas em teu solo
a repousar

marco antônio de paula franco
cianorte/pr., 31/10/1979


























A casa é uma extensão da nossa felicidade. E viver nela é ser feliz. Em casa.


aconchego



assim como com muitos sonhos se faz uma história
também de intenções, e padecimentos se faz um lar
não uma casa para ser olhada por meros olhos
mas algo que aconchegue e nos faça sonhar

um porto seguro onde se possa chegar cambaleante
vencedor ou vencido, mas vivo e querendo viver
cada vão momento, como se fosse o ultimo instante
e tão feliz, como se mais não se pudesse ser

que tenha cores, mesmo sem nenhuma pintura
e que tenha flores, mesmo sem nenhum jardim
mas que guarneça tudo o que foi conquistado

essa nova casa que é a sua mais bela gravura
onde em sonhos, talvez você já tenha estado
quero-a só pra você, desta forma, assim


marco antônio de paula franco





















Lá, além do horizonte...

Lá, além do horizonte, eu sei
Os dias não marcam a pele
E todo dia é exatamente igual
Ao dia que fui feliz,
E que eu não me esqueço...

Onde o poeta faz versos
Prá corações abertos
E pessoas sem pressa
Não há roupa estendida
Nem chuva no céu...

Lá além do horizonte, eu sei
Tem tudo, além de paz
É onde vou estar, a meditar

P´ra onde vou levar o que vivi
E ter todo o tempo prá morrer
Com uma inscrição qualquer de jazz...

Marco Antônio de Paula Franco



























Amanhã

Amanhã vou querer andar pelos caminhos que andei, um dia
Vou procurar ver nos caminhos o que eu não vi, e que havia
O que procurei e não achei porque não eu estava lá, quando passei
Eu procurava só chegar onde cheguei e onde estou e não estou...

Amanhã vou ressuscitar os passarinhos que matei quando criança
E vou reencontrar velhos amigos que eram meus, e que eu não era deles
Vou dizer todos os bons dias que eu neguei sem querer que não fossem
Vou ser o eu que eu não vejo há muitos anos...

Amanhã vou reconhecer um milhão de pessoas e ignorar outras não sei quantas
E vou fazer o que sempre tive vontade de fazer: ser só eu
Dizer um monte de besteiras e me sentir realizado

E quando adormecer vou sonhar com o dia que não aconteceu
Porque ainda vou querer estar vivendo o meu amanhã:
Amanhã vou ressuscitar os passarinhos e velhos sonhos...

Marco Antônio de Paula Franco


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